terça-feira, 26 de setembro de 2017

Detalhes


Signos táteis - equilíbrios relativos,
Impressões acústicas e visuais.
Jogos de admiração 
E autoafirmações culturalmente disseminadas,
Medos de passados projetados no presente,
Heterossexualidade comumente referida,
Na qual se esconde o espetáculo real do ser.
Existências essencialmente dialógicas,
Pretensões não quantitativas,
Expectativas, ainda que ocultas,
Mas sempre poéticas,
Funções integradoras de uma tecnologia utilitária,
O desejo de ver o não visível, 
Quem sabe impressões iguais? 
Para além da estética 
Que acolhe os olhares medianamente universais...
A imaginação reconhece detalhes e pretende muito mais!

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Alice sem país





Enquanto o potencial de uma metade se expande,
Se faz ação, objeto... vida pulsante,
A outra metade implode,
Torna-se desespero, dor e neurose.
Dos diálogos ausentes
Resultam almas transbordantes de nada...
E os olhares de uns reprovam 
As performances e os rituais de outras...
Impondo-lhes o não lugar.
Corpo limiar em encruzilhada
- duas estradas - a implosão ou a luta!
Fala sem escuta, Alice sem país...
Ele é todo mestre, ela com sorte,
Aprendiz!

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Vamos Juntas!!!! Empodere-se!


Faz um período que não encontro tempo para escrever, mas hoje é dia. Há dois meses deixei de ser policial civil, atendendo violência doméstica na Delegacia da Mulher de Cianorte para mudar de carreira, mas não de tema. Hoje estou produzindo o Workshop Empodere-se de Defesa Pessoal para Mulheres. Depois de dois anos de eventos teste, fazendo pequenas oficinas ensinando técnicas de defesa pessoal, depois de passar por um mestrado em Políticas públicas, no qual analisei o discurso de mulheres vítimas de violência, e após atender mais de 2 mil casos que se enquadraram na Lei Maria da Penha, construímos, a muitas mãos, o formato do workshop que produzimos hoje.

No entanto, desde que começamos a colocar em prática tudo isso, neste formato, há dois meses, tenho vivido muitas emoções diferentes. Quando fizemos pela primeira vez, na cidade de Maricá no Rio de Janeiro, nos deparamos com mulheres em situação de violência, que nunca haviam se aberto com ninguém, e tivemos o privilégio de ouvir suas histórias. Uma delas foi cega até os 18 anos, e depois de fazer uma cirurgia recuperou a visão de um olho e ali sua vida começou a melhorar. Mas logo se casou com um homem de alto poder aquisitivo, que não permitia que ela trabalhasse ou estudasse, saiu dessa relação, começou a trabalhar como empregada doméstica, estudar, criou sua filha sozinha. Depois dos 40, já com a vida estabilizada, conheceu um outro homem, se casou de novo, e novamente, entrou numa relação abusiva, engravidou, e ainda grávida, ele a agrediu fisicamente, e abandonou a relação e nunca assumiu a criança.

Em Maringá, na primeira edição do workshop, também ouvimos muitas histórias, trajetórias de mulheres que foram ameaçadas, que tiveram que ir escondidas a polícia, fizeram medidas protetivas. Mulheres que estavam passando por situações de violência naquele momento e que mal conseguiam falar na roda de conversa, porque nunca tinham aberto seu coração em lugar algum. Meninas pobres e ricas que sofreram abuso sexual na infância pelo vizinho ou pelo pai da amiguinha numa viagem de luxo.

Ouvimos histórias de mulheres de 14 anos que acompanham a história de violência sofrida por suas mães. Mulheres de 50 anos que passaram a vida sendo submissas aos maridos e tiveram suas identidades usurpadas e hoje lutam para se reestruturarem emocionalmente. Mulheres de 30 anos que passaram pela universidade, tiveram excelentes acessos, incentivo familiar, mas que ainda assim são levadas a  assumirem tarefas domésticas quase sozinhas, e quando engordam alguns quilos seus companheiros insinuam que precisam se cuidar mais.

Não tenho nenhuma amiga que não tenha sido discriminada por ser mulher. Todas, sem exceção, já viveram alguma situação de violência, tiveram seus corpos invadidos, sua mente e sua alma. Estão em relações abusivas e não conseguem sair, seja por dependência emocional, financeira, ou por falta de recurso interno. As que conseguiram sair carregam dores, feridas, marcas profundas. Eu também as carrego. 

Hoje, estávamos num café apresentando o projeto para uma menina que desejava conhecer mais o Empodere-se. E enquanto discutíamos cada ponto, fomos surpreendidas por uma menina na mesa ao lado que nos ouvindo começou a chorar. E olhei para ela e convidei-a a sentar conosco. Ela veio, e com muita dificuldade, nos contou sua história. Disse que há um ano e meio atrás passou por uma relação com um homem muito rico, que a espancava, a deixava em carcere privado, a dopava e destruiu todas as coisas dela para que ela não conseguisse ir embora.

O tempo todo, ela se culpava pelo que havia acontecido. Dizia que não sabia como permitiu que as coisas tivessem chegado a esse ponto. Dizia que era burra, que se sentia feia. E ela é linda, perfeita, inteligente. Mas sua autoestima está quase destruída. Eu disse a ela que havia atendido mais de dois mil casos similares ao dela e que todas as mulheres com as quais conversei também se sentiam muito culpadas por terem permitido que as coisas chegassem a situação de violência. Disse que se eu, uma única policial, atendi dois mil casos, e que todas as mulheres que estiveram no nosso workshop relataram situações de violência, então, o problema não está em nós, mas sim numa sociedade que é permissiva com a opressão. E que então, precisamos trabalhar nossas culpas e lutar para construir uma sociedade diferente. Nós a abraçamos e a convidamos para participar do workshop que faremos mês que vem.

Acontece que, guardadas as devidas proporções, também me senti assim na maioria das relações que tive. E eram relações aparentemente muito maduras, com homens intelectuais, incapazes de ferir uma mosca. Mas que muitas vezes não economizaram ao transferir seus problemas e traumas para mim, me culpando de suas próprias dificuldades. Um deles uma vez, com sérias dificuldades para ter relações sexuais, disse que eu era muito travada na cama (o que nunca fui, e ele sabia bem há mais de uma década) transferindo assim seu problema a mim. Trocou meu nome pelo da ex-esposa, e dizia que tinha muita dificuldade em lidar comigo, pois eu era muito parecida com a ex (o que hoje considero um tremendo elogio pensando na grande mulher que ela é). Este mesmo homem, em um momento de grande fragilidade da minha autoestima, acusou que as minhas escolhas de vida tinham sido equivocadas, no que tange eu ter escolhido a política como algo central em minha vida, pois eu deveria ter feito uma carreira na mesma área que a dele, pois assim eu estaria muito melhor, isso é, colocando-se como modelo para mim e desqualificando minhas escolhas. 

Enfim, isso somente em uma relação, tive outras ainda piores, e fatos ainda mais graves nesta mesma, que foi a última e a mais longa. Mas a verdade é que estamos todas vulneráveis a muita violência. Violências visíveis e invisíveis. Mas que vão nos destruindo por dentro e por fora. Minando nossa autoestima e nossas relações com o mundo. Quantas mulheres geniais devem ter se perdido devido a esta realidade. Quantas coisas muito piores devem ter enfrentado as mulheres de gerações passadas. Quanta riqueza o mundo perdeu e perde por nos oprimir, por tentar calar as nossas vozes, minar nossas elaborações. Nossas identidades tem sido implodidas e nossos potenciais tem sido transformados em neuroses devido a violência. 

Na última semana uma meia duzia de pessoas em diversas ocasiões diferentes me perguntaram porque saí da polícia com um tom de julgamento, como se isso fosse uma loucura. E sempre respondo a verdade, saí para produzir o Workshop Empodere-se - Defesa Pessoal Para Mulheres, pois não sentia que na polícia civil eu realmente poderia ajudar, mudar a história. E aí, estas mesmas pessoas me disseram "tá, mas no que você está trabalhando, assim, formalmente?", respondo, "é nisso mesmo, dá bastante trabalho" e fico bem séria, olhando para a pessoal, a maioria percebe a gafe. Mas temos enfrentado diversos tipos de subestimação, mulheres jovens produzindo algo diferente, que não entra muito bem na cabeça das pessoas. Sofremos assédio de homens que nos atendem, infantilização, discriminação mesmo, ouvimos piadas machistas... mas nada disso nos faz parar.

Continuaremos, e faremos nosso trabalho para o maior número de mulheres que conseguirmos e por todo o Brasil. Porque a gente propõe um workshop que institucionaliza e coletiviza um recurso que adquirimos sozinhas na nossa trajetória e há sempre mais estrada para percorrer. Hoje a menina que encontrei no café, a qual eu pude abraçar e ouvir, me faz ter certeza do que quero na vida... quero a mesma coisa que eu queria no início da minha adolescência, sem uma vírgula a menos, quero mudar o mundo, e vou... mas não sozinha. Vamos juntas!!!








terça-feira, 27 de junho de 2017

Microcosmo


Tinha a inadequação expressa em uma face de traços adequados, severamente adequados. Uma demonstração sutil de desconforto visceral com o mundo, um desencontro de si quase conformado. Um olhar distante, embora perto de um infinito qualquer. Ele guardava pequenos detalhes de suas peculiaridades como quem guarda um tesouro. No lugar da  ainda tímida inspiração da arte, a matemática da vida, escondia. De uma espiritualidade concreta, traduzida... partículas quânticas, a física. Um mosaico identitário, fora do padrão, cujas idiossincrasias deixou o microcosmo daqui... numa leve e doce expansão.

domingo, 18 de junho de 2017

Talvez... que bom... que pena!


Já não dói mais como doía... e eu já passei por isso antes!! Não dói mais como doía e há um lado muito triste nisso. Não dói porque a memória está reconfigurando, apagando as sensações... deixando as lembranças vazias de suas cores, de suas esquinas. Deletando os cheiros, as dimensões exatas dos toques... os frios na barriga, as emoções verdadeiras... a memória está deletando os deleites, as risadas, a dimensão exata do prazer da companhia, a magnitude do que era poder te tocar. Mesmo com registros, fotografias, músicas, poemas... por mais que eu olhe para eles, já não me darão a exatidão do que vivemos. E isso vai trazendo um certo alívio, permitindo que eu siga em frente plenamente, que não sofra todos os dias, que não chore toda semana, que não dê um jeito de te encontrar todo mês... mas com o alívio que chega, também se vão os sonhos, a intensidade da alegria, as motivações que me moviam na sua direção. A minha memória se apaga para que eu possa ser eu, inteira, não carregue uma ferida aberta enquanto corro o mundo por aí... mas é triste, porque esta memória protetora, quando apaga suas cores aqui dentro, é como se apagasse também uma parte de mim. Aos poucos o amor está dando lugar a melancolia. Sei como funciona, já aconteceu antes... me lembro de quando a gente foi lá insistir em reavivar tudo de novo... como eu fui relembrando cada sensação de estar com você, as conversas, os toques, os encontros, as danças, as esperanças, os sonhos... me lembro de comentar... de me indignar como eu podia ter esquecido tudo, e que por mais que me lembrasse dos fatos, não lembrava das cores... as cores tiveram que ser refeitas... e foram!!! Agora eu estou aqui, percebendo que a cada dia me lembro menos, a exatidão das coisas escorre por entre minhas mãos...a cada dia tudo vai ficando distante... talvez tão distante que daqui a pouco você seja um bom amigo do rol dos conhecidos de longa data, que de vez em quando, uma vez por ano quem sabe... a gente marca um café, conta as novidades, diz que se apaixonou de novo por outra pessoa, e até comemora que o outro esteja feliz, fica feliz pelo outro sentindo assim só uma pontinha de desconforto... segue em frente meio sem saber o que houve. Talvez... que bom... que pena!

sábado, 20 de maio de 2017

Histórias sem fim sobre alguém, escondidas na ilha da inconsciência... (parte I - A adolescência e a pós-adolescência)


O obstáculo em que se esbarrava inicialmente era a pobreza no campo das abstrações. A percepção literal da realidade não diferenciava em muito o ser transcendental teoricamente humano, de seres carnais fora desta categoria. Este foi o início... um tanto rudimentar, muito desastrado, mas que demonstrava um certo talento, cujo substrato eram apenas músicas simplistas e pouco mais do que notas de rodapé de um clássico ou outro do pensamento da humanidade.

Um ser falante, feito de desejo, contido num narcisismo óbvio e precário se desenvolvia de maneira descoordenada. Nenhum tutor estava de verdade envolvido no processo. Tinham lá alguns similares a "Mestres dos Magos", que ofereciam conselhos enigmáticos, mais interessados em viverem suas próprias pseudo adolescências do que no exercício de real responsabilidade... muito longe de serem capazes de ajeitar as coisas ou de exercerem qualquer autoridade.

Mas ainda assim os valores iam sendo construídos, firmados a cada dia no valor da diferença. Situava-se através de uma rede de oposições. Encontros frustrados com intuito de metaforizar desejos mais complexos e completos acabavam se parecendo com um grande bazar de miudezas no qual se gera muito interesse momentâneo, mas que não se podia aproveitar muita coisa no sem graça cotidiano da vida real. 

Porém, como afirmou um filósofo nada qualquer, "os momentos essenciais da vida são marcados pelo transpor de uma identificação a outra"... identificações que eram contraditórias entre si, levando o indivíduo a apaixonar-se pelo problema... desejos que se opunham as demandas geravam uma moldura hedonista para a vida, firmados em seduções transferenciais.

Mas claramente, não se podia forçar a ingestão do saber. Era nítida a vacuidade do sujeito, seu vazio de próprios pensamentos. Significantes anacrônicos exerciam dominação, mas que permaneciam camuflados pelo gosto de falar indefinidamente. Não era possível enquadrar, nem medir realmente aquele ser nascente para a vida adulta... muito menos através de suas próprias réguas frágeis.

A narrativa verdadeira se construía sem cenário, sem cores, num campo apenas subjetivo, com significações abstratas. Era possível apenas entender a si mesmo através do outro, só o outro era real, portanto, só a partir do outro era possível enxergar-se. Seu comportamento era permanentemente exercido através de pressupostos, que correspondiam plenamente a sua própria reputação... fosse lisonjeira ou terrificante. Mas quase todo seu recurso era emprestado e artificial, portanto, mesmo guardando alguma reputação, tinha uma fragilidade evidente, mas que ninguém viu.

Ninguém viu porque, como afirmou o filho amado da psicanálise, "reconhecer o outro como humano é muito diferente de reconhecê-lo como sexuado". É certo que mesmo nesta seara, carregava alguma sofisticação... mas que não passavam de desastrosas experiências de fazer com que o mal-estar se transformasse em satisfação, que agiam no intuito de apenas calar evocações de humanidade que tentavam ser trazidas a tona.

Então, um tom alegre que se desmentia diante de qualquer brisa fria, revelava somente verdades não agradáveis que não prometiam salvação. O refúgio se dava na obscuridade, guardando nas sombras posições fundamentais de existência, gerando dependências essenciais. E assim se arrematava um período, selava-se uma fundamentação.


quarta-feira, 17 de maio de 2017

Vida vegetativa


As mágoas eram parte da vida real... cotidianos impositivos os levavam a percepções de rejeição, de cansaço, de esgotamento. Que iam se tornando aversões quanto a própria existência. Incrustravam-se então, nos cantos de cada um  deles, os nódulos emocionais nocivos, que bloqueavam a espontaneidade para a vivência leve, rejeitando assim qualquer possibilidade de cumprimento das teses fundamentais do esoterismo.
Era evidente devido a inquieta hostilidade expressa que tudo tinha uma causa que se encontrava no passado. Levada em frente que se acumulava... trazendo novas formas, retroalimentadas. Eram possíveis as justificações destes sentimentos, tanto quanto se quisesse. 

Mas só poderiam ser definidos correlativamente, mágoa e indivíduo, ambos os agentes possuíam características similares evidentes a um olhar mais atento. Encaixes de lacunas e colunas tristes davam formas as culpas que se instalavam, oferecendo falso substrato a uma vida vazia.

Seres humanos que não se achavam universalmente realizados, rotinas uniformes que indicavam vidas vegetativas, que não resistiriam ao ser inquiridas sobre seus sensos e significados. Indivíduos fracionados, cujos conhecimentos atemporais contidos estavam esquecidos, abandonados.

Quais as saídas? Total impossibilidade de tornarem-se subitamente ativos, metades dissemelhantes, gente infiel aos seus delírios, mergulhada em fundamentações lógicas e indicações de evidências radicalmente inúteis de fatos sincrônicos justapostos. Não haveria mediações através das quais se pudessem instalar processos de aproximação. Observações doloridas... nada mais a fazer, senão a poesia.

terça-feira, 16 de maio de 2017

Diálogos com Beauvoir


Situação mais ou menos encerrada, realidade misteriosa, ameaçada. Coisas subjetivas que hoje não existem mais, talvez nunca tenham existido, talvez fossem apenas fugas inautênticas.

Com uma evidência total, apresentavam-se sentidos singulares de características imputadas como limitações. Não eram singularidades, eram relativizações do outro, estabelecendo a si mesmo como referencial.

Questões absurdas implicadas como princípio, descobrindo-se na própria consciência as razões das aproximações estabelecidas. E por mais longe que se remontasse na história, estariam presentes apenas agitações simbólicas, muito distante dos protagonismos reais.

Nem as promiscuidades espaciais, nem a elaboração do mundo com o olhar próprio estavam no campo das permissões e das licitudes. Sempre uma existência justificada, revestida de um prestígio infame. 

De um lado, uma liberdade que deveria inventar seus fins sem auxílios, do outro, a tentação de fugir de sua liberdade e de constituir-se confortavelmente em coisa. Cortadas de sua transcendência, frustradas de todo valor...

Não havia partilha igual do mundo, por mais que se contestasse todas as justificações. Os donos exibiam sua satisfação alicerçada no absoluto e em sua pretensa condição de eternidade, com todas as peculiaridades a serviço de seus desígnios.


segunda-feira, 15 de maio de 2017

Experiências reinventivas


O tempo descrito, encontrava tanta ressonância diante de uma infinidade de leigos interessados que a proposta de unificar a forma e conteúdo, necessitava de mais interpretações para atender tamanha demanda... seguindo o rastro de outros estímulos e sugestões.

Talvez fosse necessário reconhecer a direção na qual, agora de forma ampliada, indicava a imensa quantidade de sintomas manifestos. Construir uma capacidade de tomar passos intermediários, presindindo-se de uma divisão de acordo com as funções apresentadas.

Conformar-se com a exigência direta, com foco no exercício de abnegação, indicando a tarefa a ser executada, estava na pauta do dia de maneira forjada... almejando um âmbito falsamente liberado, incapaz de evitar repetições, impregnada de reações para supostamente embasar novos conceitos na corda bamba do pedantismo.

Demasiada ênfase, menosprezava o primeiro passo, interpretando tudo de forma absolutamente literal.  Ignorando que ninguém poderia ser nem bom nem mal em si mesmo. Constatações a partir de retrospectivas, essas sim...  geravam crescimentos de acordo com os próprios sintomas... tal como explicitado extensamente.

Faltas cometidas na vida cotidiana não reconhecidas ou ocultadas, residentes no abandono da unidade... congratulavam os afetados, lhes anestesiando...  impedindo-os de assumir a responsabilidade pelo próprio destino. 

Reconhecer de bom grado como provas indicações do próprio padrão... isso sim indicaria ir além das medíocres exigências mundanas outrora naturalizadas, criando um ambiente propício para resignificações.

Novos campos de experiência, tornavam-se guia de almas pelos mundos interiores, lugares feitos para causar incômodos, países anímicos próprios e coletivos, coincidiam com os desejos pulsantes arrebatadores, facilmente identificados... obtendo-se então, a possibilidade, ainda que remota, de curar-se.


sexta-feira, 12 de maio de 2017

Arena de conflitos éticos



Deslocamentos semânticos marcavam uma discussão intrincada pelas mais variadas vozes. Ao examinar tais deslocamentos, percebia-se a judicialização das relações sociais. Variando a esfera óbvia propriamente dita.

Mas era claro que os sentidos nunca se esgotavam numa única interpretação... eram séries de pensamentos latentes inteiramente diferentes... elementos considerados isoladamente... retratos de cansaço também.

O que nascia da seara estritamente privada... ódios e paixões, dissolviam-se agora na cultura cívica, na medida em que se propunha a substituir os velhos ideais. Uma estranha lealdade fazia-se depositária do ideal justo... contraposição ineficaz ao injusto.

Havia uma pluralidade de acontecimentos traumáticos e alguns caminhos laterais que contornavam tudo. Estranho velho mundo.

Formavam-se então elementos híbridos localizados no limbo das iniciativas bélicas, estatutos de dependência social, nos quais os exemplos vigentes e concretos teimavam em contestar  as argumentações. Recheadas de limitações.

Revelavam-se de forma incompleta os sentidos, mas revestidos de uma incompletude essencial. Novas estranhas associações ao material oferecido originalmente. Caráter de inacabamento essencial da interpretação. Vulgarização da delação...

O encapsulamento da violência mexia veementemente com a lógica das dinâmicas das relações de poder, que ironicamente tinha uma pretensão de neutralidade, tentando apagar a dinâmica política que constituía tal realidade.

Não havia começo nem fim absolutos. Emaranhados de pensamento... simbolismos inerentes. Atestados pela oposição feita, pois eram metades de um objeto partido... que talvez acabassem sem sentido.

Seres inocentemente comprometidos empenhavam-se na formulação de demandas, na tentativa quase estéril de empoderar as vozes dos pequeninos que participavam do jogo mortal. Vistos como parte de um signo convencional. Apontados como sua característica fundamental... traduziam-se em fragmentos insanos de atributo essencial, mediadores entre a subjetividade e o real.

Esforçavam-se para empreender distinções entre os diversos significados... evidenciando a complexidade que reveste as relações... dissimetrias de poder relativas... idiossincrasias que marcavam os contextos contemporâneos. Meros sinais temporais de um acontecimento? Os códigos eram absolutamente privados... uma articulação entre o sinal e o sinalizado. Mas em precariedade de situação.

No entanto, o embate era certo e a derrota provável, pois as iniciativas se interseccionavam com outras dimensões recortadas, formando assim, um intrincado paradoxo. Definições correntes versus concepções inegavelmente progressistas. Implicadas em tramas assimétricas. O pensamento intrometido disfarçou-se em características básicas quanto a constância das relações.

Mas no pano de fundo, em curso estava a aquiescência e os compromissos mútuos. As vezes as traições eram postas através de garantias de sentido estrito e até formal, outras vezes apenas formulações tácitas. Quadro paradoxal, resultado de uma espécie de truncamento. Universalidades e particularidades se articulavam e se atritavam, negando pressupostos que orientavam a melhor ação, na imensa arena de conflitos éticos.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Pauta


A simulação desempenhava um papel desprezível, formando uma injunção permanente de contradições da torrente de fatos narrados. Crises deflagradas pelas expectativas frustradas, liberação de uma grande carga de afeto acumulada. 

Eram tantos sentidos a serem interpretados, sentidos que indicavam formas disfarçadas de realização de desejos. Mas não havia confiabilidade nas chaves de interpretação. Conglomerados de formações psiquícas, de cujas entranhas emergiu um material misterioso e inacessível.

Em um solo histórico que possibilitava a emergência, traçava-se continuidades e assinalava-se efeitos, aturdidos pelas grandes descobertas já tantas vezes encobertas. Mas a pauta era o desejo que animava, gente entregue a perplexidade por todo lado, que se fossem refletir, não encontrariam nada. Talvez somente a ausência de qualquer garantia. 

Longo tempo oculto pela ignorância, a diferença é que antes não era perfeitamente delimitada. Mas produzir o saber sobre algo, é produzir algo. Construir uma narrativa.... sob formas diferenciais segundo as quais ela se apresentava. Mas a loucura nada mais seria do que uma doença sem corpo, que não minimizava o desamparo original de todos os verdadeiramente envolvidos. 

Como evitar a alucinação e a consequente decepção? Encontrar a desejada identidade perceptiva... instaurar propriamente o discurso, implacar os últimos esforços de resistência. E assim, ceder lugar a um decifrar real de sentidos. Encontrar o ponto de articulação entre as coisas, que a censura impedia de saber.

Noções de defesa... maus indícios que pretensiosamente se transformaram em evidências, constituindo ideias de natureza aflitiva, muito aquém de serem informações eruditas. No entanto, a continuidade era dificilmente recusável. Um palco gigante para encenar uma peça homérica... muito importante para os amantes, mas, na verdade, inócua para os demais.

Esqueceram-se de conservar vias de escoamento, reduzir as tensões decorrentes, constituindo um represamento total. Havia qualidades simultaneamente percebidas, que não implicavam na mutabilidade de seu conteúdo. Tudo estava posto... por enquanto, ninguém deposto.

terça-feira, 9 de maio de 2017

Não pertencimento


A percepção do que sensos comummente construídos chamariam  de arrogância, talvez fosse a constituição da chave da operação-ruptura com alguns saberes existentes. Saberes externos, essencialmente. Mas não só. Seria preciso reconhecer e preparar arsenais para a luta interna na qual a razão era apenas um efeito da superfície.

Concepções excessivamente generalizantes, clivagens inevitáveis tolhiam a singularidade concreta dos olhos atentos aos neófitos movimentos da alma. Mas as necessidades da subsistência ainda se materializavam como grilhões da negação do ser. Proporcionando fundamentos radicais de permanência que deveriam ser gradualmente rompidos.

A lógica era o não pertencer a nenhum lugar preexistente. Mesmo as localidades subjetivas que foram preservadas como referência, estavam obsoletas... não faziam eco em um ego cansado dos mesmos padrões. 

Já as paisagens reais, cognotivamente apreesíveis, pareciam ser essencialmente farsantes. As fofocas cotidianas, os maldizeres paupérrimos, as ordenanças vazias de substratos humanos. O não pertencimento aos lugares obrigatórios pelo tempo guardava em si o resto do mundo e neste resguardo produzia o seu próprio lugar.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Poesia filosófica


Na superfície do ser há um quase-ser,
Acontecimentos-sentido,
Escapando aos fundamentos.
Cujo pensamento influi 
Nas nossas formas de viver.

Tantos temas privilegiados,
Certas soluções apresentadas,
A busca infinita pela essência,
Abrangendo a singularidade do sujeito,
A universalidade da consciência.

Um lugar dentro da dúvida,
Trazendo a razão como mediadora
Entre as várias subjetividades,
"Do mundo fechado ao universo infinito".
Nada mais parecido...

A Idea platônica e o Édipo freudiano,
O Cogito cartesiano...
A diferença é menor do que pensamos.
O estatuto da palavra,
O princípio da não contradição.
Uma só explicação.

Imersos no simbólico.
O eu, o ego, o lógico...
Substância pensante,
Resultado inverso, controverso e angustiante,
Que divide com outras o domínio do real.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Excêntricas sequências


Em vão poetizar o caos,
Romantizar a tentação do ébrio
Que então comemora
Seus dias de sobriedade,
Enxergando a beleza no estrago,
Acreditando poder tomar somente
Um único trago.
Elemento de realidade,
De uma influência atenuante,
Finalidades Imaginativas 
Das premissas delirantes.
Irrupção da insanidade
Ou estado de melancolia?
Movimentação expressiva
Exaustiva e calada
Que se constitui avessa a euforia
Quando num simbolismo prático
Cujas excêntricas sequências
Se fazem em condições contrárias
Para a cura do pesar com alegria.






quarta-feira, 3 de maio de 2017

Livre Expansão


Eram estímulos sensoriais,
Impulsos para sonhar,
Como "garis" da mente.
Impressões enfatizadas,
As triviais e as que não foram trabalhadas,
Esbarravam casualmente na fala,
Deliberadamente refreada.
Energia psiquíca armazenada,
Ínfima parcela,
De uma função utilitária.
Então o coração desfruta 
De uma espécie de feriado.
Escudo contra a monotonia da vida,
Recreação preciosa,
Peregrinação,
Mitigando a dúvida em amena descontração.
Feridas do espírito inevitavelmente aparecem,
Mas há a vã esperança em algo...
Para se resguardar de novos danos,
Entusiasmo quase extasiado,
Conclusões de sentido, realização...
Aglomerações místicas,
Irreduzidas,
Energia espontânea
Sempre e sempre,
Livre expansão.

terça-feira, 2 de maio de 2017

Milagre


Em sua reflexão praticamente em transe... em um estado quase onírico, lhe visitavam pensamentos peculiares. Veio-lhe então ideias sobre os milagres. O milagre, diziam tais pensamentos, era exatamente o que parecia ser. Uma mudança radical frente a uma situação intransponível. Variaria de tamanho. Podendo ser desde a concretização de uma sinapse cerebral tão desejada, mas de aparência impossível, até o clássico "mover montanhas". Milagres eram mesmo aquilo que as lições mais primárias afirmam ser. 

Apenas seu desenvolvimento era mais específico do que qualquer um já descrevera até então, pensava em transe. O milagre era milagre sim, apenas não funcionava com o automatismo descrito pela insanidade posta a toda hora. Assim como todo o funcionamento do mundo, a magia também tinha seu caminho, seus procedimentos. 

E isso não era de agora... toda a literatura mágica trazia metologia quanto aos procedimentos milagrosos e suas principais características. Havia milagres que passavam só pela obtenção privilegiada da informação. Tipo Noé e sua Arca... bastou saber antes que haveria um dilúvio, a informação foi o milagre, o resto complemento. 

Houve milagre de mergulhar no rio algumas vezes para ser curado; de deitar em cima da pessoa três vezes para fazê-la ressuscitar; milagre com estratégia de guerra, de quebrar vasilha, tocar trombeta e gritar. Teve milagre, a contragosto do beneficiado, de ser transportado na barriga da baleia. A multiplicação de mantimentos é um clássico também, foi desde azeite, a pão e peixe. Cura de doença também ocupava parte relevante da literatura.

Mas em todos eles havia algumas coisas em comum. Pessoalidade e riqueza de detalhes. Pessoalidade como critério óbvio. Riqueza de detalhes: tipo... porque uma Arca? Poderia ser uma caverna, uma ilha isolada... mas era uma arca que deveria ser construída pelas mãos do beneficiado. Um milagre com contrapartida. Ou porque a multiplicação do azeite na medida da quantidade de vasilhas emprestadas dos vizinhos da pobre viúva? Milagre na medida da fé do necessitado.

Por onde e pelo quê passaria seu milagre? Nenhum pensamento lhe vinha a toa, por acaso. Nem acreditava em acasos. Mas acreditava em milagres. Uma intervenção mágica no tempo e no espaço. Os milagres não eram exatamente uma mudança de curso. Eram peculiaridades da própria lógica comum, a exceção necessária à existência da regra.

Sua razão estava em admitir a loucura, só não a doença. A magia era loucura. A tristeza a doença. A transcendência também loucura, a rua sem saída, velha doença. E seu milagre, sua necessidade de ação para além dos lugares comuns? O preenchimento das ausências. Toda dor era metáfora dos amores não tidos. E a cada passo no trajéto, mais um e mais um. Um procedimento cíclico. Acumulado. Majorado. O milagre? Percorrer o longo e solitário caminho a ser percorrido.





domingo, 30 de abril de 2017

Belchior... minha singela homenagem!




Sempre tive a impressão de que ele era um poeta desses parecidos com uma parte dos meus amigos... que acende um cigarro e recita qualquer poema bêbado, de sua própria autoria, no fim da noite, na mesa do bar. Gente simples de tão complexa, que as vezes se enche de alguma fé quase cética, guardando as armadilhas, sem muita estética, para poder amar. Do tipo que diz..."hoje à noite namorar, sem ter medo da saudade, sem vontade de casar". Como eu gostaria de ter dito essa frase, para os ouvidos do mundo e para os meus... Sinto que ele foi alguém de uma efervescência de alma tamanha, com muito mais coragem que a maioria de nós, viciado em emoção. Que não se compreendia totalmente e quando se via no espelho expressava uma vaidosa lamentação... "Como é perversa a juventude do meu coração que só entende o que é cruel, o que é paixão". Uma homenagem única e honesta à intensidade. E então, demasiadamente humano, oscilava entre a desilusão e a esperança, dialogava com suas contradições, fazendo da sua arte o seu escape, sua arma, seu protesto e seu encanto: "Ora direis, ouvir estrelas, certo perdeste o senso, eu vos direi no entanto: enquanto houver espaço, corpo e tempo e algum modo de dizer não, eu canto."... Cantamos todos... pois em algum lugar dentro de nós, ainda acreditamos. E mesmo sabendo da complexidade psicanalítica que guardava o amor, essa de ser encontro de sintomas e percepções questionáveis, preferia dizer...: "Deixando a profundidade de lado, eu quero é ficar colado à pele dela noite e dia, fazendo tudo e de novo, dizendo sim a paixão, morando na filosofia. Quero gozar no seu céu, pode ser no seu inferno. Viver a divina comédia humana onde nada é eterno". O que posso dizer? Também quero!!! E apesar dele não ter cantado as dores da minha geração, teve percepções poéticas atemporais, do quanto nossa arrogância a respeito da vida e das mudanças que podemos proporcionar as vezes são infantis... e que depois de algumas desilusões, isso tudo nos faz sofrer... e muito. Portanto, assim, em mil ocasiões, ontem, hoje e amanhã, entoamos com ele, sem mais...: "Minha dor é perceber que apesar de tudo que fizemos ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais" ... Obrigada Belchior!!! Descanse em paz.



quinta-feira, 27 de abril de 2017

O mês de abril e a saudade...


O mês de abril não deveria se chamar assim, deveria se chamar saudade. Os dias começam a ter temperaturas mais baixas, o Sol brilha e o céu fica com um azul vibrante. As noites são frias, as comidas e as bebidas quentes tomam o seu lugar. Em abril já não estamos mais no início do ano... o que tinha que começar já começou. O verão dá lugar ao outono melancólico e poético.

Tenho memórias intensas de coisas que acontecerem neste mês em vários períodos da minha vida. Na adolescência e início da juventude, essa época estávamos sempre envolvidos com os congressos estudantis... na qual viajávamos quilômetros para discutir política e encontrar pessoas queridas ou pessoas que faziam nosso coração pulsar, revivendo um anacronismo delicioso da mistura do amor com a política juvenil.

Foi em abril de 2010 que assumi a liderança da juventude do PT no Paraná, num encontro intenso que me deixou saudade e gerou paixão. Em 2012, neste mesmo mês, me mudei para São Paulo. Em 2013, passei abril inteiro, conhecendo paisagens na Bahia. Foi em abril que iniciei as aulas do mestrado e no ano passado ingressei na última etapa da Escola Superior da Polícia Civil.

Neste ano, foi neste mês que fiz um dos mergulhos subjetivos mais profundos, percebendo coisas do meu passado e iniciando novos projetos para o futuro, descontruindo padrões que pareciam intransponíveis. Tive um mês interessante, que por mais dolorido que tenha sido, me deixará saudade quanto a intensidade das coisas. Não é sempre que a vida tem sabores tão relevantes, costuma ser sempre em abril.


quarta-feira, 26 de abril de 2017

Canetinha marrom


Quando eu era criança, pré-adolescente, adolescente e me colocava em alguma situação de conflito na escola, havia um número imenso de possibilidades de resolução. Uma vez aos 7 anos, uma coleguinha me acusou de ter furtado uma canetinha marrom, porque justo a canetinha marrom dela tinha um formato diferente das outras. Mas todas as canetinhas marrons daquela marca, eram assim, inclusive a minha.

Eu sei que aquela "calúnia" me tirou o sono, eu não queria voltar para escola e enfrentar a colega que era a mais popular da turma e me acusava. Relatei os fatos para o meu pai. Ele, antes de qualquer coisa, ao me levar para a escola, estacionou o carro um pouco antes e orou para que Deus agisse naquela situação e abrisse os olhos da colega quanto a falsidade da acusação, depois me encorajou a encarar os fatos e me defender. Deu certo, ela achou a canetinha marrom, e me pediu desculpas.

Vivi diversas outras histórias, nas quais minha mãe também interveio. Diálogo com professores, pais de colegas, orientações. Minha mãe sempre ensinava que a gente não deveria bater em ninguém, mas caso fossemos agredidos, dizia: "se defenda". Minha irmã também deu uma grande ajuda na resolução dos meus conflitos infantis e pré-adolescentes na escola e em outros ambientes. Ela sempre foi temida e por isso, quando alguém mexia comigo, ia lá e já resolvia, as vezes com apenas um olhar ameaçador.

Resumo da história: existem mil e uma formas de resolver conflitos relacionais de crianças e adolescentes. Ou ao menos existiam. Soluções que vão de oração e manutenção da serenidade, passam pelo diálogo, até a devolução da agressão sofrida na mesma moeda. Aprendi isso em casa, como a maioria das pessoas.

Mas hoje, nem estamos na metade da manhã e atendemos na delegacia uns três casos bastante similares ao da canetinha marrom. Pessoas que não ensinam seus filhos a enfrentar as situações de conflito infantil e querem recorrer a polícia para resolver absurdos. Tenho certeza de que nunca nem passou pela cabeça dos meus pais ir até uma delegacia de polícia para requerer resolução quanto ao que era responsabilidade deles resolver. Não sei se já existia uma parcela da sociedade, mesmo naquela época, que já fazia isso, mas hoje em dia tem de penca.

Acho que essa atitude dos pais passa uma mensagem errada para crianças e adolescentes, de que um órgão público deve resolver seus conflitos subjetivos e privados. Fico pensando o que motiva alguém a ir até a polícia para requerer soluções assim. Todos os adjetivos que consigo pensar não são nem um pouco lisonjeiros. Gosto de diversos aspectos desse novo mundo politicamente correto, mas há que se ter limite quanto a intervenção do Estado em conflitos particulares... linhas tênues.


terça-feira, 25 de abril de 2017

Acne em poesia


Um cenário de guerra, pós guerra, pós batalha... 
Vermes comiam a energia criativa 
Que em sua direção tosca se tornara em nada. 
A mistura da vida parasita 
Com os resquícios dos soldados de uma batalha estéril, 
Inflamavam, erupções por toda parte.
Erupções que ilustravam a dialética do não... 
O mesmo "não" que poderia salvar o todo da guerra, 
Despedaçava as células em cada etapa da luta.
Como resultado: a deformação de uma harmonia óbvia 
Que era perdida a cada dia, 
Acumulando cicatrizes como uma menos pior companhia.
Algo estava errado, e se estampava na vitrine do existir... 
Como um alerta inquestionável.
Metáfora que gerava metáfora, 
trazendo a concreto o que não se pôde transcender. 
E assim o corpo pagava um preço alto 
Diante da incompletude do ser!

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Heranças transcedentais


Minha avó se chamava Eulália, morreu em 2011, aos 80 anos. Ela teve uma vida pulsante. Com olhos verdes e grandes, uma risada expansiva, unhas vermelhas enormes, costumava agregar muita gente a sua volta. Tinha um pensamento sagaz e uma elegância invejável. Faz seis anos que ela se foi e sinto a sua falta sempre... as vezes escuto sua risada e sua voz vivas como nunca em meus pensamentos e lembranças.

Ela tinha amigas pelo país a fora, sempre ouvimos falar de muitas delas, de São Paulo, Minas Gerais, Curitiba... laços profundos, pessoas que a visitavam e ela visitava sempre. Mas havia uma com status especial, que morava mais perto, sobrinha de seu primeiro marido e pai de seus filhos, o Pedro, no caso, meu avô. Essa amiga, se chamava Arminda.

Cresci ouvindo a vó Eulália fazer elogios a sua grande amiga Arminda. Indo visitá-la, falando com ela ao telefone. Coincidência ou não, Arminda sempre morou em Cianorte, 70 quilômetros de Maringá. Eu tinha a impressão de que a amiga era uma mulher forte e esplêndida tanto quanto minha avó Eulália... provavelmente eu tinha razão.

Acontece que neste ano, me mudei para Cianorte. Procurei a família que tenho aqui, mas que nunca antes tinha entrado em contato. Percebi nesta parte da família uma afinidade sem precedentes... e soube, que por mais que eu tenha resistido a me mudar de cidade, isso foi um privilégio do destino.

Entre os membros dessa família, conheci uma prima, neta da Arminda... Larissa. Desde o primeiro instante nos demos bem, ficamos amigas, como se tivéssemos crescido juntas. E mesmo com trajetórias diferentes, nosso diálogo fluiu numa profundidade que o tempo racional não explicaria. 

Volta e meia, eu e Larissa nos lembramos de nossas avós, contamos histórias de como elas eram fortes, empoderadas e exemplos de como aprendemos uma infinidade de coisas com elas. De alguma maneira que eu não sei explicar, sinto que essa amizade com minha prima é um presente de Eulália e Arminda para Amanda e Larissa. Um laço herdado e abençoado, uma amizade imediatamente eficaz porque vem privilegiada por uma construção prévia para muito além de nós. E além disso, talvez elas tivessem diálogos parecidos com os nossos, acompanhados de muito café e risadas escandalosas.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Homeland


Faz um tempo que eu quero escrever sobre esta série: Homeland. Que sem dúvida alguma está entre as minhas preferidas, perdendo talvez somente para GOT, e em pé de igualdade com House of Cards, seguida por Black Mirror, Narcos e Marco Polo (que parece ter sido cancelada).

A série foi desenvolvida por Howard Gordon e Alex Gansa, é baseada no seriado israelense 'Hatufim'.  Nas primeiras temporadas, a trama gira em torno do sargento americano Nicholas Brody, um fuzileiro de guerra que é encontrado no Iraque após oito anos desaparecido. Ele volta para os Estados Unidos como herói e passa por um difícil processo de readaptação social. O problema é que a oficial de representações da CIA, Carrie Mathison, passa a acreditar que Brody foi convertido para o islamismo pelo líder da Al-Qaeda, Abu Nazir.

Carrie Mathison, é na verdade a personagem principal da série durante as seis temporadas. E apesar de ser uma espiã genial, e perceber coisas que ninguém mais consegue ver a sua volta, tem transtorno bipolar. O interessante é que é justamente sua doença que a faz ser tão diferenciada. 

A série retrata a CIA de um jeito peculiar, diferente de outras tramas sobre espionagem, que mostram seus agentes como semideuses, em Homeland, os personagens são muitíssimos problemáticos e suas vidas particulares são tomadas pelo caos devido ao vínculo com a agência. E fica claro que o que realmente faz diferença na ação da organização é o material humano.

Um aspecto fundamental, é que os que estão na CIA, são inseridos em um mundo a parte. E quando precisam se distanciar, viver uma vida "normal", isso se torna impossível, pois conhecem como o mundo funciona de verdade e sabem coisas que a maioria das pessoas não faz ideia. 

As narrativas dos episódios são construídas de maneira primorosa, é muito difícil não se deixar enganar e prever algum movimento da série, no geral, ficamos permanentemente surpreendidos. Ah, e sim, segue a tendência dos melhores seriados de hoje em dia, não há conforto... em momento algum podemos nos apegar aos personagens ou esperar finais felizes. É só tragédia.

O conflito relacional é permanente na série, mas vínculos profundos são formados devido a vivências muito intensas na agência. Para mim as relações mais interessantes são o vínculo de Carrie com Saul Berenson, uma relação quase filial, mas que não deixa de ser perversa em vários momentos em virtude da inserção deles na CIA; e a relação dela com Peter Quinn, um romance que nunca acontece de verdade, mas tem raízes profundas.

Recomendo a série... daquelas que eu não consigo parar de assistir, ficando horas a fio em estado semivegetativo... e sentindo um enorme vazio quando acaba. Tem 4 temporadas na Netflix, as outras duas você tem que baixar fora. Mas é imperdível e está entre as melhores.

terça-feira, 18 de abril de 2017

"Ostra feliz não produz pérola"



O primeiro livro que li de Rubem Alves, eu tinha 10 anos de idade. Achei "O Retorno Eterno", por acaso na biblioteca do colégio. Ele me acompanhou na adolescência. Na juventude tive a oportunidade de conhecer Rubem numa palestra sobre educação em Maringá. Sofri com sua morte há pouco tempo, como se fosse um velho amigo.

As vezes, quando me sinto só, pego um de seus livros para ler. Acho que ele tem um dom único... porque quando leio sua obra tenho a sensação de estar numa sala cercada de obras de arte, ao som de música clássica, bebendo um bom uísque e fumando charuto, ao lado de um dos amigos que alimentam a minha alma. 

Rubem Alves intitulou um de seus livros de "Ostra feliz não produz pérola". Ganhei o livro no fim da adolescência, de uma amiga. Li e gostei. Mas logo percebi que o título escondia com sutileza um conceito voraz sobre a humanidade.

A descrição de que a ostra produz a pérola a partir dos grãos de areia que entram nela e a incomodam, metaforiza as nossas angústias transformadas em coisas boas. E cabe em diversos aspectos da vida. Acho que metaforiza a própria existência humana num mundo ostil.

Acho que são raros ou inexistentes adultos completamente felizes neste mundo. Temos sempre vícios, neuroses, traumas, relações mal resolvidas, doenças físicas, mágoas e violências contidas que carregamos conosco, que estão além de nosso alcance resolutivo muito porque tais defeitos já compõe a nossa identidade, e no fundo, por costume, apego, inconsciência... não estamos dispostos a abrir mão deles.

Mas o interessante disso, é que assim como as nossas doenças podem nos levar prematuramente a morte, também são, para muitos indivíduos, uma permanente motivação para gerar beleza, produzir arte, lutar por mudanças externas. Acho poética e divina a perspectiva de transformação de vícios e doenças em presentes para o mundo.

Rubem Alves fez isso, transformou suas dores, seus medos, suas dúvidas em diálogo com o mundo. A poesia que demonstra em suas palavras, talvez não fosse a mesma que demonstrasse no cotidiano da convivência, conforme as notícias que temos da maioria dos grandes artistas. Gostaria disso na minha vida. Deixar uma obra, fosse em que âmbito fosse, capaz de tornar meus vícios, doenças, idiossincrasias insuportáveis em questões insignificantes. Talvez um dia.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Sobre política e o nosso reencontro com a esperança!


Há um tempo venho falando de uma desilusão e desesperança que assola a minha geração. Minha percepção sobre isso se dá por alguns motivos. Não são poucos os amigos que tem cogitado a possibilidade de sair do país, gente que estudou, mas que mesmo com alto nível de escolaridade, está penando para pagar o aluguel todo mês.

Uma outra galera, que até já passou em concurso, que também sofre de desesperança, mas faz um discurso de que a vida não tem graça. Que é isso mesmo, trabalho, salário no fim do mês, bar no fim de semana, relacionamentos mais ou menos e só.

Não quero aqui deslegitimar nenhum sentimento ou impressão sobre a vida. Até porque passei por dias difíceis centrada nesta mesma perspectiva ou falta dela. Fui candidata a vereadora num dos momentos mais difíceis para a esquerda no país, e com um resultado eleitoral muito menor do que eu esperava, foi muito difícil entender que o problema era geral e não de incapacidade individual ou do grupo político do qual eu fiz parte.

Minhas esperanças foram abaladas, não só devido as eleições de 2016, ou o impeachment da Dilma, ou meu envolvimento com a militância, ou ainda a mudança para pior nas perspectivas em ampliação e manutenção de políticas públicas em benefício da parcela mais vulnerável da população, ou a incapacidade do PT de se reinventar e dar uma resposta a sociedade.

Parece que tudo faz parte de um círculo vicioso, que começa em aspecto macro, e atinge as nossas vidas particulares de maneira avassaladora. Dia desses em diálogo com um amigo, percebemos o quanto tudo o que está acontecendo no país atinge nosso humor dentro de casa. Mas creio que não seja bem isso.

Vejo uma relação dialética nesse momento histórico que estamos vivendo. De um lado os fatos gerais que nos desanimam, a ausência de lideranças nas quais podemos depositar confiança e renovar nossos votos de amor pela luta política. De outro lado, isso tudo vai alimentando nosso desânimo, nos faz abrir mão da elaboração política permanente. Nos faz não querer assumir uma responsabilidade geracional para reconstruir as coisas.

E por fim, nos dá a sensação de que tudo o que sabíamos sobre política, ficou velho. Por mais que volta e meia, as organizações tradicionais dos movimentos sociais ganhem algum fôlego, devido a absurdos propostos pelo atual governo, as alternativas que se apresentam no momento seguinte não empolgam ninguém.

Não sei onde chegaremos como consequência da atual conjuntura. Mas tenho refletido muito sobre a necessidade de reassumirmos a responsabilidade política do processo. De reinventarmos nossa esperança num novo patamar, mais complexo, mais elaborado. Não podemos nos entregar a uma estratégia que exacerbe ainda mais nosso individualismo e nos faça abandonar aquilo que compõe as nossas identidades.

Creio que é em movimento que perceberemos novas formas de diálogo e mobilização social. Não pretendo viver sem a luta política, não pretendo viver sem ser parte da construção de uma sociedade melhor... não pretendo viver sem esperança. Então, fica a certeza de que não podemos parar.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Mosaico Identitário


Uma vez em diálogo com uma amiga, ela me contou sobre como via o mundo e em como isso tinha impacto na sua maneira de viver. Disse-me que imaginava o mundo real como se estivesse em um sonho, no qual todos eram arquétipos dela. Com isso, considerava as pessoas com as quais se relacionava, a partir da mesma régua que considerava a si mesma. E acreditava que nenhuma relação que estabelecia, era por acaso. 

Considerei esse conceito em alto nível. O que para um entendedor simplista pode parecer individualismo, é na verdade um fantástico senso coletivo. Pois, ela explicou que assim, vendo a todos como parte de si mesma, sempre assumia as responsabilidades de suas relações e amava o próximo com o seu amor próprio.

Não sei se consigo desenvolver um senso tão elaborado. Mas para mim há um sentido psicológico muito importante nisso. O qual tem tido grande eco dentro de mim. Antes de entrar na polícia civil e atender vítimas de violência doméstica, eu nunca tive uma empatia profunda com elas, apenas uma solidariedade racional.

Hoje em dia, mesmo tendo experiências relacionais diferentes da maior parte das mulheres que atendo, eu me sinto um pouco elas, no que tange a minha identidade feminina e todos os bônus e principalmente ônus que isso me causa. Cada um dos casos, me vejo um pouco, penso que poderia ser eu, não fosse ter tido oportunidades diferentes. Penso, as vezes, que em outras proporções, elas são eu e eu sou elas.

Isso também se reflete nas demais relações. Sinto que cada pessoa que me relacionei na vida, passou a ser um pouco parte de mim. Cada identidade com a qual tive contato... familiares, amigos, colegas, amores... todos eles juntos formam o mosaico que eu sou, e a partir da suas, me proporcionam uma identidade única. E os sinto dentro de mim com muita intensidade. E as vezes, mesmo que eles não saibam, dialogo intensamente com cada um... e assim, me trazem conforto, respostas, dúvidas, angústias...

terça-feira, 11 de abril de 2017

Elas


Eu guardava minha admiração-inveja
De uma possível equidade estabelecida
Num, para mim, 
Quase desconhecido patamar.
Eram triângulos perfeitos, 
Que formavam um retângulo voraz,
No intenso caos do amor.
Acompanhadas de um entendimento peculiar
Da pedra angular 
Dos segredos afetivos.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

O segredo da loucura


10, 11, 12 e 13 eram os números das plataformas 
Que sustentavam sua despedida em concreto.
Dava "até breve" a sua melhor vertigem,
A cidade que mesmo gigante era seu canto quente,
Explicava e exemplifica sua origem,
Em várias cores em tons pastéis,
E no vermelho vibrante de sua estrela.
Coração cheio, agradecia o empréstimo 
Que fizera a religião que não era a sua. 
Aquele quase ateísmo radical
Sustentado por uma fé elaborada numa alma imoral.
Olhos brilhavam, 
Descansava nos esclarecimentos lúcidos 
De um sacerdote que explicava o segredo da loucura.
E se reiventava na sacralidade pagã 
Das amizades idiossincráticas.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Os ponteiros do relógio não voltariam para trás


Então enquanto ela tentou forçar o esgotamento do óbvio, o óbvio não se esgotou! Mas um dia, apenas se desfez. E no fundo do poço pode encontrar a chave para o destino transcendente.

Percebeu que a linearidade do pensamento do outro não era dela, não dizia nada sobre ela. Então as mentiras que contara para si mesma no sentido de resgatar sua alma, sua pulsão de vida, já não pareciam falsas, não eram falsas... apenas sofriam bloqueio de eco.

Naquele instante, tudo que presenciara em sua infância parecia ter sido um treinamento oculto que só agora tomava sua forma plena e passava a ter completa fruição em seu espírito. A arte do primeiro e maior gigante de sua vida a resgatava de sua pequenez. Que grande recurso lhe era oferecido!

Com a mudança de sua percepção, estava quase grata pelo abismo que a vida lhe proporcionava... pode ver o futuro, não como em uma profecia, viu numa matemática simples, não contaminada por seus subterfúgios. 

Teve a certeza de que não permaneceria naquele estado vegetativo. Já sabia que não estava mais lá. Ilusão não eram os propósitos estabelecidos. Ilusão era inebriar-se de uma desesperança que não era dela. Decidiu deixar para trás. Outro gigante interveio: "Siga o propósito, não o fluxo". Mais um pedaço do resgate se impôs. Inverteu a lógica. Já não era sem tempo.

Escreveu como quem psicografava, como uma usurpação de palavras que não eram dela, mas que por isso mesmo, nunca havia se sentido tão dona de si. Lembrou-se de que não era boa. Como se a bondade que seu estado vegetativo exigia fosse uma forma de corrupção. Que feliz constatação. Pode assumir seus sentimentos obscuros como parte genuína de sua identidade.

"Talvez vendo de fora, saber que bactérias existem, seja mais lindo do que pegar um estafilococos convivendo com elas", disse o terceiro gigante lembrando a acidez de seu humor adormecido. Assumiu os riscos de ser quem era. Estabeleceu o não. Findou sua espera. Amou suas contradições... cada uma delas.

Sentiu algo familiar.... uma emoção esquecida. Estava no controle, lembrou-se que adorava estar no controle. Levantou os braços e fez descer as brumas que atrapalhavam o seu olhar para a Avalon que reservava um outro aspecto de seu destino.

Assumiu sua própria narrativa. Já não estava em disputa a maneira com que descreveria sua história até aqui vivida. Cansou-se das linearidades desencorajadoras nas quais fora rotulada que tiveram um eco perverso devido a sua vulnerabilidade circunstancial.

Matou a esperança cega alicerçada na pseudo vivência de um amor estéril. Os ponteiros do relógio não voltariam para trás.

Estivesse onde estivesse, lembrou-se que pertencia a um todo. Não estava a margem da engrenagem que a movia. 

Eram tantos pertencimentos... a complexidade de seus gigantes, a roda da história, o caos nada sutil que se estabelecera no país continental. Ela pertencia a vida que pulsava por todo lado, pertencia as trincheiras da guerra que estava por vir, pertencia aos amores que já vivera e que ainda viveria, pertencia a todas as emoções existentes, efervescentes, dinâmicas. Era parte do movimento do Universo, compunha o começo, o meio e o fim.

Os ponteiros do relógio não voltariam para trás


Então enquanto ela tentou forçar o esgotamento do óbvio, o óbvio não se esgotou! Mas um dia apenas se desfez. E no fundo do poço pode encontrar a chave para o destino transcendente.

Percebeu que a linearidade do pensamento do outro não era dela, não dizia nada sobre ela. Então as mentiras que contara para si mesma no sentido de resgatar sua alma, sua pulsão de vida, já não pareciam falsas, não eram falsas... apenas sofriam bloqueio de eco.

Naquele instante, tudo que presenciara em sua infância parecia ter sido um treinamento oculto que só agora tomava sua forma plena e passava a ter completa fruição em seu espírito. A arte do primeiro e maior gigante de sua vida a resgatava de sua pequenez. Que grande recurso lhe era oferecido!

Com a mudança de sua percepção, estava quase grata pelo abismo que a vida lhe proporcionava... pode ver o futuro, não como em uma profecia, viu numa matemática simples, não contaminada por seus subterfúgios. 

Teve a certeza de que não permaneceria naquele estado vegetativo. Já sabia que não estava mais lá. Ilusão não eram os propósitos estabelecidos. Ilusão era inebriar-se de uma desesperança que não era dela. Decidiu deixar para trás. Outro gigante interveio: "Siga o propósito, não o fluxo". Mais um pedaço do resgate se impôs. Inverteu a lógica. Já não era sem tempo.

Escreveu como quem psicografava, como uma usurpação de palavras que não eram dela, mas que por isso mesmo, nunca havia se sentido tão dona de si. Lembrou-se de que não era boa. Como se a bondade que seu estado vegetativo exigia fosse uma forma de corrupção. Que feliz constatação. Pode assumir seus sentimentos obscuros como parte genuína de sua identidade.

"Talvez vendo de fora, saber que bactérias existem, seja mais lindo do que pegar um estafilococos convivendo com elas", disse o terceiro gigante lembrando a acidez de seu humor adormecido. Assumiu os riscos de ser quem era. Estabeleceu o não. Findou sua espera. Amou suas contradições... cada uma delas.

Sentiu algo familiar.... uma emoção esquecida. Estava no controle, lembrou-se que adorava estar no controle. Levantou os braços e fez descer as brumas que atrapalhavam o seu olhar para a Avalon que reservava um outro aspecto de seu destino.

Assumiu sua própria narrativa. Já não estava em disputa a maneira com que descreveria sua história até aqui vivida. Cansou-se das linearidades desencorajadoras nas quais fora rotulada que tiveram um eco perverso devido a sua vulnerabilidade circunstancial.

Matou a esperança cega alicerçada na pseudo vivência de um amor estéril. Os ponteiros do relógio não voltariam para trás.

Estivesse onde estivesse, lembrou-se que pertencia a um todo. Não estava a margem da engrenagem que a movia. 

Eram tantos pertencimentos... a complexidade de seus gigantes, a roda da história, o caos nada sutil que se estabelecera no país continental. Ela pertencia a vida que pulsava por todo lado, pertencia as trincheiras da guerra que estava por vir, pertencia aos amores que já vivera e que ainda viveria, pertencia a todas as emoções existentes, efervescentes, dinâmicas. Era parte do movimento do Universo, compunha o começo, o meio e o fim.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Orange is new black e o protagonismo feminino nas séries Netflix


Orange is the New Black é uma série do Netflix inspirada no livro homônimo que conta a história verídica de Piper Kerman, uma mulher de classe média-alta americana e loira, que vai parar na cadeia por ter sido comparsa de sua ex-namorada traficante. A história mostra o dia a dia das detentas numa prisão de segurança mínima nos Estados Unidos. Claro que o seriado é um pouco mais caricato e romantizado.

O que me chamou atenção é que a série foi criada por uma mulher (Jenji Kohan) com base na história de vida de outra mulher (Piper Kerman) e dispensa clichês. Retrata as questões de gênero e diversidade de maneira primorosa, traz pontos sobre transsexualidade, casais lésbicos, questões raciais. E as contradições da vida na prisão.

 É uma comédia, tem diálogos engraçados, mas é também um drama, uma permanente angústia. Em um dos episódios, meninas menores infratores tem como medida sócio-educativa (usando o termo da legislação brasileira), visitar o presídio e conviver durante uma tarde com as detentas. Então, a tarefa das presas é assustar as adolescentes. Mas há uma menina, cadeirante, que não se assusta, não se deixa enganar pelo "terrorismo" das presas. Enquanto ela está no banheiro chega Pipper, que diz a verdade para a garota. Afirma que a pior coisa de estar presa não era nada daquilo que aparentemente assustava, que demonstravam os esteriótipos, mas sim ter que encarar a si mesma sem distração.

Assistindo o enredo, fiquei pensando o quanto a vida real se parece com a vida prisional em muitos aspectos, fundamentalmente no campo da subjetividade.  O quanto as relações afetivas são o que há de mais importante na vida, onde quer que estejamos. Mas lá, isso é tudo. Fora, temos muitas coisas que nos distraem e alienam, muitos subterfúgios para não encararmos nossos problemas... inclusive assistir Netflix (risos).

Pois é, a série é nesta pegada. Um humor fino, referências pop e diversidade dão o tom. Todas as principais personagens são mulheres. E são complexas. Os homens são coadjuvantes. OINB é realmente uma obra de arte e recomendo que assistam. Mas uma coisa tem me chamado muita atenção em várias séries que tenho acompanhado: o protagonismo feminino. 

Assisti Jéssica Jones, Homeland, The Crown, The Fall, e Orange is new black (espero escrever sobre cada uma delas por aqui), e em todas, a trajetória da percepção das mulheres sobre sua força e sua capacidade de liderar, de resistir as adversidades estão presentes e são marcantes. E isso é muito reconfortante, porque é uma questão que não se via tão facilmente há tempos atrás. Creio que isso deve causar impacto positivo na nossa autoestima, nos vermos representadas no entretenimento que consumimos. É verdade que ainda está muito aquém no que tange a representatividade das mulheres negras. Ao menos nestas séries que citei, todas as protagonistas são brancas. Mas já temos um avanço.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Deveríamos Todos Ser Feministas


Hoje de manhã li uma matéria no UOL sobre como o machismo atrapalhou a carreira de Isis Valverde devido ao suposto envolvimento dela com Cauã Reimond em 2014, quando ainda estava casado com Grazi Massafera. E apesar de a reportagem ter um tom de fofoca sobre a vida de famosos, tem uma abordagem interessante. Porque falava de algo que as mulheres vivem no cotidiano. Não só no âmbito da carreira, mas em tudo.

Sou uma mulher solteira, com 31 anos e já tive inúmeros relacionamentos. Uns curtos outros mais longos. E em diversos ambientes já sofri preconceitos devido a isso, inclusive em grupos que eu não esperava que fossem assim. Já tive notícias de comentários muito maldosos sobre minha vida particular no ambiente profissional, no âmbito da família, em grupo de amigos e em coletivo militante de partido de esquerda.

E por muito tempo isso me deixou mal. Talvez porque eu carregasse uma certa culpa nesse sentido, devido a uma formação cristã simplista anteriormente estabelecida. Sempre que eu terminava um relacionamento, eu vivia dois sofrimentos... um pelo fim em si, outro pelo auto-julgamento de que mais uma relação não tivera êxito, e que havia algum problema comigo.

Mas aos poucos fui vencendo meus próprios preconceitos. E agora até sofro com os fins dos meus relacionamentos... mas sofro de saudade, de carência, de palavras não ditas, de amor mal resolvido. Mas já não mais por me achar culpada, por não cumprir padrões esperados. Com certeza há problemas comigo, mas nada que fuja do razoável.

E depois que dei esse salto na vida, comecei a reparar menos como esses preconceitos vem por parte de outras pessoas. Ao vencer meus sentimentos de culpa, o que outras pessoas me acusam, parou de importar. O que não significa que não me indigno com algumas coisas.

Para ilustrar... num passado bem recente, fui a uma festa na qual estavam presentes velhos amigos. Dois deles estavam acompanhados de suas esposas, ambos casados há muito tempo. Quando eu cheguei na festa cumprimentei todos os presentes, mas ao abordá-las, ambas mal olharam na minha cara e todas as vezes que eu tentei desenvolver um diálogo com algum deles, elas vinham e os tiravam de perto.

Aquela situação me incomodou, eles são pessoas queridas que eu não via há um bom tempo e realmente gostaria de ter conversado direito. Demorei para perceber o que estava acontecendo. Percebi realmente só depois da festa. Aquelas mulheres foram machistas comigo. Eu uma mulher solteira não deveria estar conversando com os maridos delas. Ainda mais eu... que já tive relacionamentos com pessoas do mesmo círculo deles, "vai que são os próximos a entrarem para minha lista de destruidora de lares, né?!!" Represento uma ameaça. Seria cômico se não fosse trágico.

É trágico porque era um ambiente de pessoas com um nível intelectual bastante razoável. É trágico porque atrapalha minhas relações de amizade e de certa maneira até minhas relações profissionais. É trágico porque essas mulheres são extremamente inseguras e procuram depositar suas frustrações matrimoniais na primeira mulher que elas acham que escolheu trilhar um caminho diferente do delas. É trágico porque elas não são felizes com o caminho que escolheram.

E a verdade é que eu não tenho nada a ver com isso. E acho que o mundo deveria estar mais evoluído e que as mulheres deveriam ser as primeiras a se protegerem. Mas o que ocorre na prática é um ataque gratuito, que reproduz o machismo e a misoginia construída há séculos e séculos atrás. Minha resposta? Bem... fico com as belas palavras de Isis Valverde: "Me delegaram poderes que felizmente não tenho. Relacionamentos se iniciam e acabam com a naturalidade que lhes é peculiar"