terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Caso nos falte... não somos!

            
           Certas coisas das quais usufruímos na vida acabam por se tornar naturais a nós. Nem imaginamos a possibilidade de não tê-las, a não ser que as percamos. Uma questão que demonstra bem isso é a crise hídrica do momento. Ninguém queria debater sobre o tema até passar a ser um assunto urgente. Até sofrermos na pele a falta que a água nos faz. Até ricos e pobres terem seus banhos igualmente racionados... então pronto, temos um tema universal, presente na pauta do dia.
              E assim é a vida em todos os sentidos. Nos relacionamentos, pessoas que só percebem a felicidade que o outro lhes traz, quando já não podem mais desfrutar daquela presença. Gente que acha que o parceiro é mais um beneficio acessório para seu próprio prazer. Pessoas que não saber o valor das relações, das reciprocidades. Nem em romances, nem em amizades.
             Ou ainda coisas da vida cotidiana. Dias atrás, no trabalho, tivemos falha nos aparelhos telefônicos... o serviço ficou prejudicado, o esforço para a realização das tarefas ficou muito maior. Um objeto que usamos diariamente, incorporado ao dia-a-dia, ao qual não damos grande atenção.
              Hoje, ouvi de um amigo, descrevendo as palavras de um outro conhecido, que passou por muitas faltas na vida e não passa mais, disse algo como, "que bom é ir ao mercado e não precisar olhar o preço das coisas." Achei interessante pensar como a falta molda nosso caráter. Esse alguém que já teve falta e hoje não tem, sabe o valor das coisas, valoriza suas conquistas e também acaba por ser mais humano com quem está em volta, pois entende as posições diferentes na vida e o quanto elas são mutáveis.
              Pessoas que nunca receberam  "não" , naturalizam todos os benefícios que a vida lhes dá. Subestimam os presentes, as bençãos, os esforços alheios, sentem um pouco como se fossem o centro do Universo, e transformam, dentro de seus corações, favores dos outros para consigo, em obrigações. 
             Enganam-se muito esses que assim agem e sentem. Pois a própria vida, o próprio respirar, é graça, nos é dado. Não somos capazes de nos auto-sustentar vivos no Universo. Caso nos falte o ar, não somos. Caso nos falte a luz, não somos. Caso nos falte a água, não somos. Caso nos falte alimento, deixamos de ser. E mesmo que não nos falte nada, um dia deixaremos de viver. Não somos capazes de impedir a nossa finitude. Por isso, não há atitude mais adequada do que vivermos em gratidão.